segunda-feira, setembro 04, 2006

O deserto 2

Os dias sucederam-se inconsistentes e dolorosos. Jaafar metera uma moeda na boca e chupara-a até ela se tornar um toco em brasa. Depois mordiscara durante uma infinidade a última tâmara que trazia consigo. Os dias sucediam-se como martelos e Jaafar não parava, deixava-se ir naquele sempiterno morno ritmo, com a esperança cravada em algo que entretanto esquecera. Caíra numa letargia de réptil em que se via tendo dois corpos, um leve como éter dilatando-se em direcção ao horizonte infinito e o outro seco e mudo e duro sentado no dorso da camela e caminhando na sua eternidade de cadáver. Abanava a cabeça dum lado para o outro, a injustificada réstia de esperança forçando-o a estar vivo e sobreviver.

Um movimento de atmosfera como mil trovões a explodir ou cavalos a galopar irrompe em seu redor. A camela, nervosa, sacode-o violentamente. Jaafar sente-se arrancado, como se os dois corpos fossem forçados a unirem-se, e desperta como se caísse pelo vazio do ar até ao céu. À sua volta o terrível barulho rodopia, como se gritos e clamores rebentassem no vento, e a areia levanta-se em vagas que turbilhonam sacudindo-se como chicotes. Shamal, murmura Jaafar, e desata a gritar batendo com as pernas na barriga da camela para forçá-la a deitar-se, grita atirando-se para o chão e encostando-se à camela como se quisesse confundir-se com ela. A morte verde do deserto, murmura, A morte silenciosa que não se pode evitar com nenhum gesto, e a areia entra-lhe pela roupa cortando-lhe a pele com violência de navalhas ou míriades de gotas de ácido sulfúrico e o silêncio é finalmente atordoado por algo tão vazio quanto ele, Depois é nada de nada, apenas um breve momento que num instante passará, e mergulha no calor do animal que treme de medo junto a si.

12 Comments:

Anonymous Anónimo said...

E quantos desertos interiores, mesmo num mundo rodeado de gente!

3:45 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Cada um de nós é uma solidão tão grande… A relação que cada qual tem consigo próprio é única… O amar o outro como a si próprio é muito mais do que uma fundamentação moral; trata-se duma impossibilidade ontológica… Bolas, ‘tou uma seca hoje ;)… Abraço.

11:17 da manhã  
Blogger Andante said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

1:59 da tarde  
Blogger Andante said...

Jaafar atravessa o deserto e eu ando lá ao pé à procura de paz e silêncio...

1:59 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Talvez também Jaafar... ;) A paz alicerçada num combate interior que ao silêncio apela... Abraço.

3:47 da tarde  
Blogger Lord of Erewhon said...

Tenho que vir respirar com mais tempo estes desertos que para aqui andam... Estás a converter-te ao Islão? :)=
Abraço.

6:07 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Oi, Bishop.

De todo. A minha conversão ao cristianismo é de pedra e fogo.

Mas Jaafar, pois… Também suspeito que seja muçulmano… Possivelmente herético ;)

Abraço.

PS : E quanto aos simplismos a-históricos que para aí pululam, não passam de merda ideológica. Quem respeita Tomás de Aquino e esquece Averroes, ufana-se da grécia clássica e ignora voluntariamente o sufismo, alimenta as forças da ilusão e do engano. Relativamente a este assunto, há quem nem devesse ligar a televisão ou ler o jornal sem um preceptor islâmico ao lado. Pelo menos nos próximos 50 dias 11 de Setembro ;) E lembro-me… andava eu a passear em Marrocos, em plena crise existencial (uma delas ;) e com os discursos de Mestre Eckhart na mochila e na pinha, de praia em praia mediterrânicas e avançando depois Rif adentro… os diálogos teológicos (e não só…) que ocorreram como cristais do meu crescimento cristão (de muçulmano para cristão…), especialmente um que acabou à beira-mar já o sol prestes a nascer, com um tipo que ainda por cima era chibo da bófia (e que era algo como um relativista religioso, um agnóstico, não em relação à existência de Deus, mas relativamente às revelações e teologias)… « Nous sommes tous fils d’ Adam » dizia-me ele após um extensíssimo circunlóquio acerca da vida, da morte, do amor, das culturas, da política… Foi um momento luminoso… e já estou a divagar… Deve ser porque hoje é dia 11… :P

10:28 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Se não tivesse Cristo no coração, nestes tempos conturbados de guerrilhas americano-arábes, cuja revolta sentida me leva o fiel da balança a pender para os últimos, já tinha abraçado o Islão.

11:14 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro anónimo/a.

No coração, sim.
Que é um lugar cheio de ruído e confusão, de conturbação e revolta - tal como a guerra, toda ela.

Claro, na guerra mais opressora e oprimida, a revolta pode ser a luz que mantém a lembrança de que se está vivo e se é significante.

A injustiça, pois... é sempre uma afronta. Uma afronta que ganha batalhas sempre que não a sentimos.

Com grande intensificação desde a segunda guerra mundial, o governo norte-americano tem sido o caldo de destrutivas alianças, contratos, negócios e acções. Terríveis andam, a alta política e finanças... mas nada disto toca directamente o fundo islâmico ou cristão. Enfim, isto é muito discutível, e noto-o agora que o acabei de escrever... ;)

Até porque o fundo destas coisas é sempre onde floresce a conturbação existencial, também, ecos e procuras - a vida, a violência, merda.

Um abraço.

11:32 da manhã  
Blogger Luiz Henrique Matos said...

Vitor, olá!

Outra vez aqui, parabéns pelo texto. Gosto de suas 'ficções' muito mais do que dos comentários. Falta que me faz textos assim aqui no Brasil.

Acessei o blog que me recomendou (Estação Noturna) e fiquei surpreso com a qualidade dos comentários do Samuel. Ainda não nos correspondemos, mas farei contato.

Fique com Deus.

Henrique Matos (BR)

2:24 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Oi, Luiz.

Obrigado.

Eu vejo os comentários como fricções que orientam as ficções… e vice-versa :P

Engraçado falares de textos no Brasil… Eu agora anda bastante interessado em duas autoras brasileiras, a Clarisse Lispector e a Adélia Prado… Mas estou a milhas ainda de as conhecer (literariamente, quero eu dizer).

Quanto ao Samuel, pois… é um belíssimo escriba cristão. Já me provocou uma insónia e tudo (que é a melhor pedra de aferição dos arrebatamentos :)

E cá se vai tentando ficar com Deus, nesta vida confusa ;)

Fica com Deus também.

Abraços de além-mar!

4:00 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

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1:55 da tarde  

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