segunda-feira, junho 05, 2006

O sol desaparecera por trás dos prédios

- Les fleurs des femmes, dizia a capa, e o livro ardia. Havia três noites que não dormia, três noites que não lembrava, três noites que desapareciam. A planície estendia-se toda para dentro e estava cheia de gente, fogueiras e barulhos. O carro imobilizou-se como que num último estertor de encontro à árvore que se recortava num céu violeta. O rumor surdo da água chegava aos meus ouvidos e eu andava. Pessoas rastejavam no chão guinchando e evitando tocar-se. Todos olhavam para Sueste e andávamos com o sangue a escorrer-nos pela pele. Um deles tinha a cara inchada, cheia de feridas rasgadas que supuravam como se se babassem. Era porém o mais sereno de todos. O mais lento. Casais possuíam-se num frenesim desesperado como se o mundo findasse amanhã.
– Só a acção humilde nos pode responder, dizia sorrindo através da dor, Uma introspecção contínua leva a uma perca de contacto íntimo com as coisas, ou à morte, nunca ao conhecimento. E estava errado, as verdades todas do mundo. – É necessário devorar o útero e dele nos alimentarmos, disse eu, e os pés já não me doíam, e os outros já não me assustavam. Cada erro é uma resposta do conhecimento, a questão devorando-se a si própria, o enigma. A resposta procurando a pergunta sob forma de resposta. Já não me doem os pés. Percebi então porque não lhe doía a face.
Entrei na casa e sentei-me. A única coisa que me chateava era não me terem dado tabaco. Estava-me a apetecer fumar como o raio. De resto, estava capaz de esperar o tempo que fosse preciso. Sem problemas.
Durante muito tempo ouvi as coisas. Palavras que nada me sussurravam mas me coçavam o pensamento. Palavras frustradas como irritações. Mas no mesmo tempo mantinha-me ali sentado caminhando, ouvindo o mundo. Foi um tempo de paciência, ambicioso e desmedido. Foi no futuro e eu trazia cada silogismo como destruidor da sua própria dialéctica. Não me lembro do meu nome e fazia vento.
Sussurros. É quieto aqui. O ritmo baixa quase até ao zero. Uma neutralidade que permite levar cada gesto ao seu limite, sem perigo de desgaste. Acho que alguém me chamava enquanto eu podia ouvir o meu nome. Feedback metafísico como uma embriaguez desgovernada na sua confiança. Sussurros que não se ouvem.
É um daqueles livros cuja leitura está nas cinzas da sua combustão, não no seu corpo gramatical, disse ela. É uma vida assassina, e eu aquiesci, mas não me interessava, doíam-me os olhos, queria fechá-los, devia ser agradável. Já não se ouvia a água mas a árvore recortava-se no céu violeta onde deslizavam nuvens finas e rosáceas como frustrações abertas.
Desliguei o motor do carro e saí. O sangue corria-me pela face mas nada me doía. Os meus pés inchavam.
As fogueiras elevavam-se iluminando a planície inteira, as almas cada vez mais numerosas e nuas e violentas como terramotos a sucederem-se. Era como se uma música subisse ao céu e o rasgasse. As almas das mulheres eram muito parecidas com as dos homens sem por isso serem umas femininas e outras masculinas. Como se por momentos o amor se tivesse tornado carne, a ilusão se tornasse passado. O dia iluminava a noite.
Ele desperta e abre a boca. Nenhuma palavra se forma. Como se tivesse esquecido, um esquecimento que é sintoma de lembrança, memória. Diz tu então: É necessário desconhecer para poder amar e acreditar, ou seja, conhecer profundamente. A fé é um guarda-chuva para os dias de sol.

18 Comments:

Blogger Manuel said...

Hummm...vou reler, deixar a fermentar e cá voltarei para opinar... :)
Abraço

7:21 da tarde  
Anonymous Malu said...

Valha-te Deus, puxa vida!

(mainada) Malu

11:36 da tarde  
Anonymous blues said...

"por princípio, caiu o chão na horizontal. porquê esta poeira de circo, mais limpa que o asfalto? será melhor ou pior ver-vos vagueando, impõe-se-me salvar-vos de dentro de tubos e caixas? ou estarei elevando-vos com a minha quietude. vou caminhar em silencio também, mas não vou partir"

o sol anda aí para alguma coisa, vitor, passa bem.
um abraço

3:15 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Huuuumm, Manel, olá… Fermentar, ruminar, pois… Abração…

9:50 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Oh Malu… :)

Para puxar à vida, Quem mais?...

Podes crer, não O vendo. É que são tantos e tão opacos os prédios… ;)

Beijo.

9:54 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Olá, Blues.

Huuuuum ;) Mas nem sempre e nem só somos nós que dominamos o sol mostrar-se ou esconder-se. Mesmo crendo em luta interior e exterior que está aí e não partiu, há silêncios assustadores. E é escusado por fotografias solares em horizontes reais e vivos ;)

O teu primeiro parágrafo acertou-me em cheio. Magnífico. E mais vale, para o caso, manter-se no silêncio da Sua companhia e continuar a caminhar, que parar para pôr na Sua presença justificações que não estão lá.

Deveria aqui falar-se da ordem das coisas – será tecto ou será chão ou puro nada de orientação…

Sei lá ;)

Abraço.

10:11 da manhã  
Anonymous blues said...

fora de aspas, dominava o "passar bem" acrescido de um postal inútil. foi uma intuição, pronto. :)

abraço ordeiro

11:44 da manhã  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Vida gótica! JAJAJAJAJA!!!

3:25 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Blues.

As tuas intuições nunca são inúteis ;)

Abraço porreiro.

2:07 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Ó gó… vida gástrica, vida gática, vida em god…;)

Alguém ainda me há de explicar isso do gótico…

Strong and sweet
Eucharistic blood

2:09 da tarde  
Blogger Moria said...

Fala a Loucura: Boa Noite, Cristão :)

2:29 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Bom dia loucura!

11:24 da manhã  
Blogger Ariadne said...

Já lhe ouvi chamar muita coisa mas guarda-sol é a primeira vez...

Nunca entendi muito bem essa coisa de querer fugir da chuva e do sol - tem dias, mas ainda assim - da mesma maneira que me falta o entendimento para pendurar a vida num cabide até ao dia em que a Fé a quiser vir vestir.

BB

11:02 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Olá, Ariadne.

Guarda-chuva para os dias de sol, que o guarda-chuva para os dias de chuva não estremece de fé.

Não se trata de fugir, mas de ir ao encontro no choque do real. Suspende a justificação e olha a vida, o cabide, a espera, a fuga e os encontros... O entendimento dança daquilo que o extravasa - sem no entanto se negar, tal como todo o resto.

A fé não é algo que se possa esperar; espiritualmente, tudo o que se pendura no cabide, apodrece, e adoece-nos a alma. É aliás o que há mais na religiosidade (onde melhor contexto para desviar a fé da sua fonte excessiva?)

Mas os tais dias em que se quer fugir... para onde se dirigem?...

A fé veste as coisas por dentro, irrazoável e suspeitada.

Na minha viagem, digo eu.

Abraço.

11:32 da manhã  
Blogger Klatuu o embuçado said...

O Diabo chama-te a minha casa para dares prova da tua Fé...
;)

1:37 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Oi, Klatuu.

Mas a fé não se prova nem se mostra... a não ser pelo próprio, e ainda aí, em risco e suspeita.

Até já.

12:51 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Excellent, love it! »

6:27 da manhã  
Blogger freefun0616 said...

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1:53 da tarde  

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