segunda-feira, junho 12, 2006

Antes do fogo, durante

Regressei e olhei para mim. Não me reconheci. Será possível perder-se uma solidão?

Esta porra, a antinomia, o aforismo, a metáfora, merda.

Chora então, como se fosse outro que vivesse e tu apenas assistisses e então deflagrasses de compaixão, como uma recordação, uma oscilação do navio. Eu disse o corpo zero, os músculos em total tensão e imobilidade. Seria uma cidade onde o silêncio permitisse ouvir morrer uma flor. Onde há sempre uma criança sem brinquedos que pergunta.

E a cinza da cidade diluindo-se na manhã.

Puxa-lhe a mão como a criança pedindo água.

Carros arrancam lentamente em direcção aos postos de trabalho.

Uma voz, tímida e sóbria, e a sensação, pela primeira vez que se lembrasse, leve e branco.

Soltou um riso de tornado que encheu a sala. Se nada fosse óbvio e reconhecível.

- Qualquer dia cegas ou viras doido, e desata a rir afagando o cotovelo e avermelhando-se.

A mulher entrando com uma travessa fumegante que poisa em cima da mesa.

O homem pôs uma mão no bolso e levou a outra à barba.

O tempo, essa medida de extensão e expansão, o deslizar dos limites que avançam por todas as direcções, esfumar-se-á na distância e nós?

Este momento, em que o aqui não é agora. Rosto.

O amanhã vive no mesmo espaço que o hoje e ontem. Registo.

Algo irrompe da solidão e anula todo o gesto social.

A memória mais veloz mantém o mesmo espanto, as questões abrindo-se sem resposta, e sereno, num gesto uno, a questão é causa de outro efeito que a resposta.

Olhei para ele, os seus olhos continuavam na mesma, como que revirados para dentro. Não sei se ele me ouviu. Por mim, parecia-me ter chegado ao limite deste estado, ter unido o desejo à inacção.

Tantos objectos dentro da cabeça.

Qual a diferença entre desvendar e inventar?

- Esta conversa está-me a sufocar, disse olhando para o gelo e fazendo-o girar no copo, ou disse eu, sabe-se lá.

Vê, acendo a bica, bebo o cigarro, é tudo isto, o equilíbrio interno que permite a relação social – entre nós entre nós, a geometria do edifício: nascem plantas entre as pedras da calçada, dentro dos tijolos que cobrem a estrutura.

Sabem, é muito analógico – pode-se sintonizar e dessintonizar.

Não é o (...............) que reveste o (.............), mas o (................) que concretiza o (...............). A mais espiritual das linhas.

E algures o solo eclipsou-se sob os nossos pés. Caímos duma altura proporcional à nossa sede.

Lembramo-nos, a voz agressiva. O animal acorda, as paredes humidificam-se de surdos rumores.

Se a possibilidade do rosto (Deus) não existe, tudo é permitido, sim, mas não por ausência de castigo – é a impossibilidade de transcendência de si que assassina o horizonte. A alma é sugada pela ausência espiritual e a consciência irrompe para dentro, e para a morte. Os limites são a morte do espírito. Não há lá fora. Vai-te foder, és um padre do caralho, merda. Para a vida que se fecha, tudo é permitido. Padre do caralho. Até renascer, ou melhor, permanecer viva. Mas dentro da vida que se abre, levanta-se a montanha que tudo incendeia.

Deus olhou para mim. (- É possível? – perguntei. (Através do meu próprio olhar todo olhou para mim. (Enganarmo-nos? Enganarmo-nos completamente na vida, é possível? )))

Medo: Uma linha branca: A morte: O corpo crescente: A vida desenvolvendo-se como uma planta: Ampliação: Medo: Um retraímento, um encolhimento orgânico: A vida sufocada: A silenciada morte.

Vidro, vazio. Vidente. Temor. Tremor de terra. Terráqueos. Beleza. Cig – os dedos. Cinz – as mãos. Associa. E treme. Um pensamento que não se estabelecesse. O olho reactivo. De criança sequioso. De morte vivo. Numa memória que fixasse sem reter. Sem contenção de energia. Avançaria? A vida aí, mesmo aí. Mas temos sempre medo, quase sempre.

Ele desliga o telefone e olha para o desenho que rabiscou no bloco: um macaco de óculos devorando a mente única duma multidão. Foi tão rápido o telefonema que não lhe deu tempo de desenhar os muros que circundariam a multidão.

O vento morno sacudia os cabelos dele. Acendeu um cigarro protegendo a chama com a aba do casaco. Olhou para o convento que luzia como um antropólito falsificado. Os sapos e os grilos enchiam o calor com os seus sons nocturnos. Era agradável estar ali olhando a noite, o céu estrelado e as sombras das casas em redor.

11 Comments:

Blogger mulheres_estejam_caladas said...

muito bonito e profundo. Fez-me ir até ao fundo de mim e perguntar.

12:25 da tarde  
Blogger Manuel said...

Bom dia!

Essa tua mania de revolveres as entranhas, puxando a forceps os fantasmas do espírito...:)
Um gajo até sente a bílis da alma a amargar na boca! :)

Abraço

12:33 da tarde  
Blogger Fátima said...

Muito gratos por ter colocado o link do nosso Blog.
Bem-haja.
Fátima Filipe, Fernando Paiva e Paulo Andrade e Silva

3:50 da tarde  
Anonymous blues said...

tensão e imobilidade, tudo fora dos músculos. é a ideia? esgano, engano, uma vida radicalmente outra, esta A ou esta B, desnacer sem Vez, não, não é possível. Só é possível pôr e tirar.
ai aiai!!!!
pózinhos de neurónio dançando no escuro.

1:35 da tarde  
Blogger aquilária said...

essa serenidade nocturna, no outro lado da convulsão. talvez aí as flores cantem.

um grande abraço

9:51 da tarde  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Belo, belo texto!
Abraço.

3:08 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caros Mulher Falante e Manuel.

Pois… Sei lá… O machado é para ir às raízes… ;)

Mas há coisas que só a própria pessoa pode… pois.

Abraço.

12:53 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caros Orquestradores.

Ora essa :)

Abraço.

12:53 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Blues e Aquilária.

E que dança! E que canto!

Deus está lá fora no dentro ;)

Uma vénia.

12:54 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Embuçado.

You can ('t) say no to the beauty and the beast... ;)

Abraço.

12:56 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

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1:52 da tarde  

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