segunda-feira, abril 03, 2006

Ciência – para o António Franco Alexandre

O foco judaico-cristão é sobre o nada, e toda a ciência moderna sobre o algo. Nada pode esta dizer de Deus, esse nada de mundo, e é esta pretensão que constitui uma das ilusões da modernidade. Que torna o próprio humano num ídolo, uma imagem vazia. Um logro nadificante, uma mudez do nada – e na oração, a escuta do nada tem um eco e uma voz, uma presença.

Há um outro permanente, que luz no mais profundo deserto e desespero, não um algo mas um tu omnipresente, e que doa de imediato um eu, a mutualidade que até a solidão abraça e abarca. Ora, nem um eu nem um tu são fenómenos, pois são da ordem da parte de dentro das coisas. Não são da ordem da ciência do objecto ou do sujeito, mas da vida da pessoa. Da vida a viver-se em nós, conscientes desse imediato decorrer em que nos estilhaçamos de espanto por estar aqui no caudal das ocorrências, a batata que frita na frigideira, a dor da morte e a luz da tarde que reverbera na água do rio, o som do eléctrico e a voz de quem nos ama a acolher-nos. Nada contém ou exprime a vida em ocorrência bruta, nenhum conceito, nenhuma palavra, nada de essencialmente analisável, indizível directamente por representação alguma – é da ordem do eco, do silêncio, do sugerido e indicado, do indirecto.

A aragem duma poesia, o silêncio ecoado na música, o espanto da consciência a olhar para fora de si – sem visão directa e só anseio interior, aberta à voz que vem de fora.

O cristianismo é um acrescento, não é uma descoberta. Onde não há nada ele põe, modus ponens ilegítimo, sem esgrima e sem dedução, a alegria do improvável evidente.

Toda a noite cantei e meu amor silenciou, calou fundo a sua voz – revelando-me assim a sua presença.

E todo o resto daqui toma fonte, da viva voz da vida, do coração da vinha e da sede, da aliança e do abismo, do amor e da separação – de toda a noite o canto sobre o medo no sol do meio dia.

É um trabalho de cigarra, também. Da profecia como presença que me implica – e a que digo sim, ou não, mas nunca tanto faz, nunca, nem a mais miserável cigarra, a mais desconsolada formiga ou fossilizado besouro. Esta indiferença é morte – distracção, evaporação. Como poderá cantar quem não escuta a música?

Só o sim de Deus e dos que o acolhem, ou o não dos anjos caídos e dos humanos em desespero – tocam o âmago da vida, o estertor sagrado de haver coisas, o espanto da vida que se vive e fala. Só Deus ou o diabo e as almas são verdadeiros, porque precisamente – são o sentido da realidade, o seu aspecto interior e anterior.

(Senhor Deus do universo, dá-me um coração puro, do céu que é a tua morada, dá-me um coração puro, dá-me a vida somente nada mais.

Amen.)

24 Comments:

Blogger Goldmundo said...

O Nada não é uma ideia, mas uma pessoa. Vais dar em gnóstico, meu amigo.

8:05 da tarde  
Blogger Eliot D. Chambers said...

Quem sabe um pouquinho de metafísica faria um bem aos que acham que Deus não existe. Se Deus é o Logos, a lógica O prova. Prova-se o Verbo também "in verbis". Nada mais lógico.

Mas tem gente que insiste em negar óbvio...

Vitor, abração!

2:31 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Huuum, amigo Gold, pois, os gnósticos… Enfim, desde que não seja um gnosticismo que pretenda abarcar Deus sob a forma dum conhecimento, ou sequer os modos de a Ele se abrir, estritamente com as suas próprias e humanas forças, assim pós-pelagianos… Não sei…

Seja como for, historicamente, associa-se gnosticismo cristão a diversas correntes que se caracterizam pela recusa da realidade concreta em nome duma totalitarização do plano espiritual, através dum existência ascética e dum conhecimento filosofico-conceptual… Por isso o famigerado “Evangelho de Tomé” não tem um enunciado sequer acerca da encarnação, da ressurreição, da consubstanciação etc. Um dos seus traços é a indicação de que apenas através dum auto-conhecimento essencial, se acede a Deus pela purificação de tudo em nós que não é Sua imagem, isto é, da concentração e intensificação duma parcela divina da alma humana. Não há transubstanciação existencial nem revelação de Deus ou acção da Graça… Aqui, não é de todo o meu horizonte religioso…

Não sei se te referes à verdade não se dar no imediato mas na espiritualidade (Deus, o diabo e etc). Talvez devesse aqui usar a palavra “sentido”, que é onde se dá a possibilidade de inquirição acerca da verdade. Para esta, tem de haver sempre dois planos (penso que já falamos disto algures). Uma simples pedra não é verdadeira nem falsa: é, simplesmente. Para eu duvidar dela, preciso duma segunda instância de relação – nem que seja o eu retraído que duvida da exterioridade… A simples apresentação das coisas não põe o problema da sua verdade ou falsidade… A realidade só é verdadeira ou falsa na procura do seu sentido – que requer outro plano que não o da sua estrita apresentação. Eu penso que esta tensão se dá quando nos concentramos não na apresentação, mas no viver implicado que somos, e é esse uma dos sentidos (eh eh) do post… Enfim, como sempre, pelo menos é o que me parece que se passa comigo…

Quanto ao Nada não ser uma ideia mas uma pessoa, não percebo muito bem… Refiro-me no post a um nada-de-mundo – isto é, Deus. Isto remete para a distinção entre criador e criado, assim como para uma ascese teológica e mística. O nada puro, o nada de tudo – bem, não é nada, nem ideia nem pessoa. Agora que há entes nadificantes, e que tenham um senhor ou princípio pessoal, pois… Mas esses entes não são puro nada… Talvez seja uma questão de palavras e significados (ui ;)

Abraço.

PS: Queres tu respostas simples, porra… :):)

1:06 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Eliot.

Mas a existência não é um predicado lógico... Para aceitar essa dedução é preciso postular a existência de Deus enquanto Logos, o que precisamente não é dedutivel mas assertivo...

Enfim, confusões da metafísica... ;);)

Abraço portugrasileiro!

1:09 da tarde  
Blogger NaSacris said...

Vitor, obrigado pela visita, também tomei a liberdade de o linkar.
Abraço

5:06 da tarde  
Blogger aquilária said...

querido vítor, passo aqui, leio-te e...imprimo o texto, para te reler com calma, talvez amanhã, enquanto saborear o meu primeiro café, sentada na mesa em frente á janela, talvez o ruído da chuva como música de fundo, em vez do habitual canto dos pássaros.
e não sei se esta minha primeira leitura, o olhar demasiado apressado, me suscita memórias despropositadas mas, uma vez mais, dou por mim a pensar em s. joão da cruz e no seu poema:

entreme donde no supe/y quedéme no sabiendo/toda ciencia trascendiendo.

yo no supe dónde entraba/pero cuando allí me vi/sin saber dónde me estaba
grandes cosas entendí/no diré lo que sentí/que me quedé no sabiendo/toda ciencia trascendiendo

(...)

um grande abraço.

5:40 da tarde  
Blogger Goldmundo said...

Uma pedra não é verdadeira, nem falsa, é "simplesmente". E nós? Quero dizer, e tantanto compreender o que dizes: há um outro plano (face ao qual a realidade-que-nos-sentimos-ser ganhe o seu aterrador sentido... e a sua verdade e a sua mentira), no qual simplesmente "sejamos"?

Hum.

De resto, o meu ponto cego é a oscilação entre o deus-nada (ou sobre o qual nada pode ser dito) e o deus-carne...

Claro, a Graça.

7:13 da tarde  
Blogger Ariadne said...

Olá Vítor

Obrigada pela tua visita ao viramundo e pelas tuas palavras. Hei de passar por aqui mais vezes.

Namasté

5:25 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Alô, querida Aquilária, olá olá… Pois, de ti, só podia mesmo vir um despropósito que acerta em cheio e no centro… ;)


Deus é a chuva cantando, os pássaros chovendo – e nada disso, uma infindável caminhada para lá de cada passo, cada experiência orante, pensante, prática… Uma tensão em carne viva que não se esgota em nenhum anseio e experiência.

Abraço forte.

PS: João da Cruz é evidentemente um dos meus catequistas. Tu já leste Mestre Eckart?... O Deus para lá de Deus…

1:49 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Mestre Gold.

Mas a questão é mesmo essa… É que nós, enquanto vividos, somos também a apresentação das coisas, precisamente (não há pedras em si)… Dizer “pedra” é já um conceito…E do ponto de vida, desejar-se inanimado e fixo no ser tal como a pedra se nos apresenta, é uma decisão, a que corresponde construir uma vida inteira nessa tensão e esforço de ser (não sei se há quem tente esta resposta vital…) O humano nunca é simples ;) ou sequer acabado e fixado… No outro dia alguém me disse que a nossa perfeição residia na nossa imperfeição… Somos entes em decisão e confusão…

Há um horizonte onde simplesmente somos, sim… Mas nada sabemos sobre ele, apontamos para ele, penso eu… É o terceiro pedido do teu Aladino… Tentar viver a partir dele, é a tarefa cristã… E nesta cegueira lúcida, pois, a Graça ;) e a oscilação de que falas…

Abraço.

2:05 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Alô Ariadne.

Viramundo... é um termo fantástico. :)

Obrigado também, e um abraço.

2:10 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Nasacris.

Já há para aí um adro, agora uma sacristia... Qualquer dia, temos um net-edifício completo :):)

Abraço.

2:12 da tarde  
Blogger NaSacris said...

Hehehe! Olha, e além do Adro e da Sacristia ainda tem muitos outros lugares para encher de "blogspot", tais como: o átrio, o presbitério, a torre da Igreja, o campanário, a casa paroquial, todas as salas da catequese, ... e só para dizer alguns. Abraço!

8:59 da tarde  
Blogger Lord of Erewhon said...

Como poeta é um autor de frases arremendadas, como professor um blaseur confuso, cuja epistemologia não ultrapassou as enfadonhas argumentações Popper/Kühn... e de teologia não percebe um caneco!

«Se Deus é o Logos, a lógica O prova.»? JAJAJAJA!!! Era só o que nos faltava!

«desde que não seja um gnosticismo que pretenda abarcar Deus sob a forma dum conhecimento»? E há outro??

«Por isso o famigerado “Evangelho de Tomé” não tem um enunciado sequer acerca da encarnação, da ressurreição, da consubstanciação»? Porque será? «famigerado»?? Ya, OK, viva a ortodoxia e o resto para a pira inquisitorial! Na verdade, o «teu» cristianismo é uma pura mentira, um apagar e reescrever de uma «história» que encaixasse numa opção de teologia... Bem pior que os ilustres «astrónomos» católicos a salvarem os fenómenos para o sistema ptolomaico!

7:43 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Eh la Bishop.

Que raio, voltamos aos retratos-robots…

O que me interpelou compreender foi o que o mestre Gold queria dizer com “gnosticismo”, e como o indiciava no texto do post. A ressalva histórico-filosófica veio depois. “Famigerado” é uma ironia, que estranhamente te escapou. O Evangelho de Tomé, na minha casa não está em nenhuma pira mas na prateleira, junto com muitas outras coisas gnósticas e etc etc

A História é sempre uma reescrita; aliás, toda a escrita e pensamento é uma reduplicação duma ocorrência qualquer, mental ou fáctica ou outra. Não percebo o que queres dizer, neste contexto, com “verdade” e “mentira”… A não ser que confundas os acessos e construções a que aderes com uma verdade e realidade tal qual (eu nem sei o que significa tal, mas siga…) Lembro-me de há uns tempos falares dum acesso ao Jesus histórico directo, retirando as fontes literárias e arqueológicas pretendendo assim o acesso ao Jesus “verdadeiro”… É ingenuidade, ou tens tu o tal telefone azul ou de outra cor para falar directamente com Deus?... Ou porventura viajas fisicamente no tempo?…

Abraço.

1:06 da tarde  
Blogger Lord of Erewhon said...

Meu caro, é sempre estimulante brincar com os artifícios da retórica!... até que nos cansemos.

O cristianismo, tal como o conhecemos, é uma pura invenção e uma mentira... uma «opção» de narração de eventos, de facto, históricos... à custa de queimar obras e opositores, em nome de uma efabulação! A questão fulcral é simples (e não precisamos de nos alongarmos com coisas menores)... JESUS RESSUSCITOU? A resposta é... NÃO.

6:31 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Bispo, tens toda a razão ;)

Jesus ressuscitou?

A resposta é: sim!

Não é na resposta por si que a discussão tem o seu sentido religioso (não há apogdticidade histórica nem conceptual) mas no fundo vital donde ela brota.

Abraçum!

12:26 da tarde  
Blogger Lord of Erewhon said...

Facto: O mais antigo dos Evangelhos, O Evangelho Segundo S. Marcos, no original, não refere a ressurreição... termina apenas com o «túmulo vazio». O mais que lá se pode ler é invenção da Vulgata.

Facto: A maioria dos textos contemporâneos ao Evangelho de Marcos, não considerados pela ortodoxia, também não referem a ressurreição. Os que o fazem, falam de uma «aparição» e não de um Jesus-corpo.

Facto: Os crucificados não eram pregados à cruz, mas sim atados.

Facto: O «lavo daí as minhas mãos» é uma interpolação tardia... Pilatos foi um tirano, um ladrão e um genocida e não uma espécie de clemente «filósofo estóico». A interpolação foi uma forma de não hostilizar a Roma (posteriormente) convertida... e a primeira manifestação de anti-semitismo (o papel dos saduceus na execução de Jesus terá sido minímo - não havia matéria teológica discordante suficiente para o condenar). Na verdade tudo na crucificação é Romano... a coroa de espinhos (e não a de louros), a clâmide (o «Rei-momo») e o letreiro «Rei dos Judeus». Roma governava pelo terror... Pregar um condenado só lhe abreviaria a morte... na crucificação morria-se em exposição pública de sofrimento... por lenta asfixia e desidratação... Partir as canelas aos que tardavam em morrer, nada tinha de determinismo legal... era uma prática dos legionários... suponho que ao orgulho dos mesmos, no mínimo, aborreceria estarem dias a fazer sentinela a crucificados.

Facto: Todas as «teologias da ressurreição» não concordantes com a ortodoxia, docetistas, ebionitas, adopcionistas, nestorianos, cristologia angélica, monofisitas - foram destruídas, não apenas as obras mas os autores das mesmas!

Sim, a ressurreição é uma mentira. Pura efabulação «histórica» de uma possibilidade de teologia que se impôs pela tirania, o assassínio, a censura e o «reescrever» da História! Mais, a ressurreição é a narrativa infantil de pobres «teólogos» que mal entenderam a reencarnação! Recordemos S. Paulo - o grande vendedor itinerante do «crucificado» e da «ressurreição» - na ágora ateniense... foi ouvido com atenção pelos sábios, até que falou da «ressurreição»... nesse momento foi contemplado com uma gargalhada geral! Não pela impossibilidade de tal facto - isso nem estava em questão, o cosmopolitismo de Atenas estava habituado a todos os exotismos - mas sim por ser teologicamente estúpido querer voltar a ter um corpo! Ter um corpo no Além?!?

11:50 da tarde  
Blogger Lua said...

Que a tua Páscoa seja realmente santa e serena.

Beijo,

11:23 da manhã  
Blogger Lord of Erewhon said...

Pá, entraste em retiro espiritual ou quê? deixa lá a Páscoa... não passa de uma campanha publicitária!

4:57 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Alô Bispo, lá vens tu com uma biblioteca de Alexandria... ;) Coño, les faits sont faits, dizia o outro. (Ou melhor, dizia outrém que um outro o dizia.)

Suspeito que o acrescento da ressurreição em S. Marcos, que se pensa ser o mais antigo evangelho, é anterior a S. Jerónimo. Mas o sentido da ressurreição não se pode entender apenas historicamente. Tanto no sentido da confirmação factual, como no do entendimento da mesma – não se trata, teologicamente, duma ressurreição de regresso à vida mortal anterior (tipo Lázaro). Por outro lado ou o mesmo, a corporeidade judaico-cristã é evidentemente no sentido da integralidade do sujeito vivo, e a relação com uma antropologia alma-corpo não é líquida nem pacífica..

Bem, carago para este tema, acabei de chegar, vou despir o casaco e descalçar as botas, e já cá volto ;)

Retiro espiritual, bem, de reclusão, não bem... Fui até à Lousã, e depois em direcção ao mar.

A páscoa contínua, pois, a vida inteira.

Como todo o rito de passagem, tem muito que ver com o que se fizer dela, espectáculo ou segredo de renovação, negócio ou ócio…

Abraço.

PS ligeiramente indiscreto: Andas a cortar cabeças, agora?...

10:45 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Cara Lua.

Um raio de luar refulgindo na serenidade activa dos dias e das noites... Obrigado, e um abraço.

10:49 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Bispo.

Tão só para acrescentar que é claramente indicado (isto é, confusa e obscuramente) a indefectibilidade da ressurreição: o não reconhecimento visível de Jesus (Maria Madalena, os discipúlos de emaús...), dando-se a recognição de outro modo.

A noção de corpo judaico-cristã não remete para a matéria física, mas para a totalidade da identidade, para a singularidade - o eu e todas as suas determinações (que inclui evidentemente a fisicidade).

Quanto às heresias de que falas, têm sempre que ver com uma espiritualização da incarnação, assim como da ressurreição. Isto é, uma anulação destas. Não se trata de ter um corpo no além, mas deste se fazer corpo no áquem. Senão teria tudo ficado na mesma, e não haveria renovação de coisa nenhuma.

A reencarnação não tem nada que ver com tal, implicando uma ascensão/descensão ontológica, e não uma transubstanciação existencial do mesmo.

Abraço.

1:38 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

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