quinta-feira, março 02, 2006

Carne vale

O artista estava obcecado. Tudo fora despoletado sem grandes lances de investigação e estudo ou especulação, quer-se dizer directa e conscientemente. Tudo fora despoletado pela simples visão matinal de metade duma banana que ele cortara ao meio na noite anterior, e que estava em cima do frigorífico enegrecida, apodrecendo, a caminhar para o incomestível, a destruir-se a si própria imóvel em cima do frigorífico. Prático e célere, o artista comeu a meia banana.

Era isso. Queria encher uma sala de frutas, vegetais, peixe, carnes… Não sabia bem ainda como dispô-las, nada disso importava, a obsessão não era pictórica. Queria dar aos outros aquela sala com toda a nossa alimentação a apodrecer, a crescer no fedor e no nascimento de vermes e doenças.

As galerias de arte recusavam-se a tal, uma após a outra.
Não porque fosse algo de inovador em história de arte, depois dum séc. XX cheio de vanguardas, accionismos e concretismos.
E o artista pensava: será que neste burgo ocidental estamos a viver um momento em que preferimos a segurança inodor da conceptualidade e da mercadoria higiénica e asséptica que pode habitar em lares e recepções sociais?...



E neste eco se afirme que a encarnação é total: Cristo comeu, bebeu, urinou, defecou, suou, espirrou, e morreu babando-se e sangrando e liquefazendo-se – como todos nós o vamos fazendo e faremos.

Ecce homo.
Mas porque O esquecemos?

Nota: E o grande Timshel lembrou-se do grande Kundera, e posta-comentou .

Nota 2: A malta bem que se apercebe que isto está a ganhar contornos da peculiar promiscuidade da vida, tal como na cena final da casa de espelhos em "The Lady from Shanghai" do mestre Orson Welles, mas a malta não consegue mesmo deixar de registar este reflexo .

28 Comments:

Blogger jorge said...

olha a propósito (chiça !) nova velha pseudo gripe, aviso ?
realmente a cada momento muito mais temos para trás que à frente ... e vivemos quase exactamente ao contrário...
um abraço, e jantar para breve ?

2:07 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Vítor

Onde vês tu que tais dimensões estejam esquecidas?
Será que não haverá aqui uma confusão entre esquecimento e uma normal desvalorização dos actos fisiológicos? Pelo menos, quando faço o balanço do dia, não costumo equacionar as idas à casa de banho... :o)

3:06 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Alô Jorge!

Ou teremos o mesmo para a frente e para trás... quase nenhum relativamente aos nossos anseios. Por outro lado, e falo por mim, há também um indistinto lance para morrer, uma indefinida vontade que surge... bem, daqui a pouco deprimem-se as hostes mais cor de rosa, a começar por mim… mas não me refiro a depressão e querer acabar com esta cega rega do andar para aqui a ver passar comboios e fugidias felicidades… falo duma muito pouco apercebida verdade de mim que se entrevê na doença, no (des)falecimento… hoje não estou com cabeça nem palavras para me alongar muito mas… como querer ir, deixar-se ir para… isto é evidentemente uma das disposições da religiosidade, pois… porque não corresponde bem a um desejo de desaparecimento existencial… a morte é a única verdade da existência… e não enquanto certeza certa que há-de vir, não… mas enquanto momento revelador da própria existência… e o melhor é calar-me :)

Eu gosto muito de viver – precisamente, aliás. Mas isto não é vida, já dizia a tia Alzira – com toda a pertinência, aliás. Eu sou feliz, e essa felicidade não cabe nesta vida. E não se trata de querer viver indefinidamente em dias que nunca mais acabassem - ou sei lá eu se se trata disso ou doutra coisa qualquer… Trata-se certamente da vida larga que em nós transborda estreitar-se de sufoco no imediato que escorre e se perde. Pelo menos quando não amamos… ;) A vida são dois dias e o carnaval três – pois, precisamente, nesse caso o Carnaval é uma mentira e se for tudo o que temos… É por isso que os cristãos têm a Páscoa, ou por ela anseiam… ;)

Eu não quero ser mal entendido – eu gosto muito de olhar para o mar, e as flores e os rostos e a maravilha que transborda vida fora… mas o nada disso espreita e oprime e envolve tudo isso e eu com isso…

O melhor é irmos jantar, é… hoje não estou muito esclarecedor (deve mesmo ser porque cheguei de quatro dias junto ao mar…) Parole, parole, parole (com pronúncia italiana, eh eh…) E que raio de promiscuidade pública é esta de vir para aqui convidar um gajo para jantar?... Ai o raio, para a semana, dá jeito?... ;)

Abraços!

4:37 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Anonymous.

(Serás tu o da abelha e das flores, assim como aquele que No Adro disse aquela maravilhosa frase de que “Tendo em conta o que Ele já me incomoda, desconfio que a minha reacção não seria muito beatífica” deflagrando todas as nossas pretensões a reconhecê-Lo e aceitá-Lo mal O víssemos quando na verdade na verdade o mais provável era olharmos para Ele como para um psicótico, na melhor das hipóteses…)

Bem… Eh eh… Se não fores, olha, é assim que se configuram os anonimatos… O que tem realmente o seu quê…

1. Em mim.
2. Não se trata bem de actos fisiológicos por si só, mas das condições da vida e da existência que tendo a elidir quando não estou doente ou ressacado ou depressivo. O Ionesco é que dizia que vivemos num contexto de “imortalidade precária”. Melhor não poderia ser dito, penso eu. Também remete para a corporeidade judaico-cristã que tendo a greco-latinamente afrouxar… (Bem, devo estar a falar com dez anónimos em simultâneo… ;)

E já agora, pergunta netroglodita: O que significa :o)?... Riso de boca aberta?...

Abraço.

5:03 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Caro Vítor

O :o) significa apenas que de vez em quando gosto de inserir o nariz no meu smile. Outra vez a questão dos pormenores...
Quanto à minha identidade, confesso que andam por aí outros que não eu. Mas, de facto, sou o abelhudo que se deu ao desplante de andar a arreliar o Manuel e os outros comentadores que por lá passaram. Um pouco de contraditório só faz bem aos neurónios... :o)

5:37 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Anonymous.

Ai o "o" é um nariz... Estas linguagens... Eh eh...

Totalmente de acordo quanto ao contraditório... Já agora que deves ser o da cara e da coroa, é precisamente isso, porque quando focamos um aspecto, desfocamos sempre outro...

Quanto à da reacção a Cristo é mesmo óptima... Eu tenho um post pressentido que tem que ver com isto, mas que se refere ao reconhecimento Dele... Porque todos falamos (bem, ok, sei lá, pelo menos é o que se passa comigo...) Dele como que num evidente reconhecimento, mas isso porque a papinha foi-nos dada já feita... Se estivesse lá estado na época, distingui-lo-ia dum qualquer judeu e profeta que para lá pululava?... Ou dum qualquer taumaturgo charlatão, até?... Pois, pois, conta-me histórias... Bem seria se tão só quanto Pôncio Pilatos cordial e dialogalmente lhe perguntasse: Mas o que é a verdade?... Já não era mau, para começar...

5:50 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Isto de pensar a divindade e a humanidade de Jesus é como a nitroglicerina: muito instável...
Ainda há uns dias, a propósito duma intervenção noutro blogue, vinha-me à ideia algo de semelhante (perdoem a grosseria): Jesus também dava traques.
Isto, porque penso que a figura de Jesus é pensada e apresentada muitas vezes de forma angélica. É com boas intenções, mas produz enormes estragos, porque impossibilita que as pessoas se possam identificar de verdade com a sua trajectória de vida.
Lia em qualquer lado que esse é o desafio mais urgente da cristologia hodierna: recuperar a humanidade de Jesus. A que eu acrescentaria a consequente tarefa teológica: recuperar o Deus de Jesus, o Deus que ele amava, o Deus que ele anunciava...

11:57 da tarde  
Blogger Confessionário said...

Tb gosto da ideia de recuperar a humanidade de Jesus. Afinal, Ele assumiu a nossa fragilidade... Mas, puxa, não percebi bem o que quiseste afirmar. Será que estou a ficar burro!?

12:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Ó confessionário, as tuas dúvidas referem-se ao post do Vítor ou ao meu comentário?...

11:07 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Anónimo.

Em cheio. E o busílis é que sem nitroglicerina não se abatem as paredes do fechamento e sufoco (bem, isto está bonito, reitero que sou uma pessoa alegre e bem disposta (“I’ m na optimist about nothing” dizia o ateu e pintor Francis Bacon) mas com mil desadequações, enxaquecas são enxaquecas e a aspirina nem sempre é boa conselheira relativamente aos diagnósticos… (Ah ganda Bacon!)) Porra, raio dos parêntesis… ))):)

Ora, a nitroglicerina cristã só deflagra quando os dois pólos humanidade/divindade estão acesos e injectados no mesmo propulsor. Separá-los contextualmente (anulação da consubstancialidade separando por exemplo o contexto simbólico do contexto fáctico) é um amornamento e naturalização do cristianismo; afirmar um em detrimento do outro (Jesus é um sábio humano, ou pelo contrário, uma teofania inumana com aparência humana) é uma heresia (étimo: escolha…)

Ou seja, dizer que Jesus não dava traques é uma heresia.

Passa-se também, e daí a remissão para certos momentos da história da arte ocidental, que a corporeidade foi de algum modo recalcada enquanto valor, e que, embora a encarnação e ressurreição a afirmem terrível e esplendorosamente, historicamente este recalcamento está muito ligado à acção do cristianismo na cultura. Por isso também, é que nos parece grosseiro falar de traques, e idem idem ser mais chocante culturalmente dizer que Jesus era pura carne do que dizer que era puro espírito – quando ambas as afirmações são igualmente heréticas.

Caro anónimo, essa instabilidade é o arame do funámbulo cristão, pensinto eu. O resto é bom senso e natureza cega (o espiritualismo é um contexto naturalmente humano, por exemplo e indício de que não se trata de “animalidade” quando se fala de natureza…)

Abraço optimista sem aspirina! ;)

12:34 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caríssimo confessionário.

Quem afirma é Ele; eu gaguejo… ;)

Todos somos burros perante a Revelação… O Mestre Gold há tempos falava da indecifrabilidade… Seja como for, talvez os comentários tornem a questão um pouco mais (in)decifrável… ;)


Como dizia eu hoje à minha ante-madrinha (louvado seja o seu nome!:), curiosamente, este indecifrável doa sentido existencial e valorosas disposições vitais - o que o torna ainda mais indecifrável...

Eu ando muito virado (mais que o costume, eh eh...) para o indizível e gaguejante... Deve ser da quaresma baptismal, isto é, do jejum do que me penso próprio...

Alea jacta est!

(Isto anda bonito, realmente…)

Abraço fortíssimo e (in)decifrável!

12:43 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Caro Vítor
Já vai sendo hora de te converteres à seita dos fiéis consumidores do são paracetamol... :o)
Quanto à citação do Bacon, muito interessante. Embora eu aconselhe algumas cautelas com o seu consumo no dia de hoje, para não incomodar os que estão a cumprir abstinência pela via tradicional... :o)

3:06 da tarde  
Anonymous sophia said...

Obrigada pela visita caro vitor... tenho passado em silêncio...

Abracinho

3:10 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Anónimo.

Longe de mim, enquanto intenção consciente, "desabstinenciar" seja quem for e de que modos for.

Cada qual com as suas particularidades, que Ele não anula mas arrebata para uma violenta renovação.

Li algures que Bento XVI respondera à pergunta de quantas vias ou maneiras de "chegar" a Deus, ou algo do género, com outralgo do género: tantas quanto pessoas.

Mas há um núcleo vivo e comum e universal... ;)

Abraço.

12:29 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Cara Sophia.

Lembro-me daquela do José Mauro de Vasconcelos: quando se ama e um silêncio inesperadamente se instaura, significa que um anjo acabou de passar... :):):)

Abraço nesse silêncio.

12:32 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Uma das melhores aportações a este tema nos últimos tempos vem de um teólogo já falecido de nome Adolphe Gesché.
A partir do dado de que o cristianismo é uma religião de encarnação, fala ele da corporeidade humana como o caminho escolhido por Deus para habitar este mundo e salvar a humanidade. E consequentemente, como o caminho para se chegar a Deus: seja o nosso corpo, que nos fala do Deus frágil, vulnerável e sensível; seja o corpo do irmão, onde Jesus se encarna verdadeiramente; seja o corpo eucarístico, enquanto tradução da comunhão de corpos e de destinos.

3:55 da tarde  
Blogger Lord of Erewhon said...

Um dia, Deus, que deveria estar aborrecido no céu , decidiu ser um corpo! Escreveu uma trama complexa: Enviou a uma menina em noiviciado a anjinha Gabriel para a emprenhar de prenhez mística. Depois Deus nasceu homem de nome Jesus - deixando o universo entregue a si mesmo - e enquanto por cá andou fingiu ser um homem, fingiu sofrer, amar, simulou ser ignorante, ter medo, etc, fingiu dormir e foi espantando os homens curando uns coxos, uns cegos, uns leprosos e mais uns quantos desgraçados que Ele, o Deus, tinha há muito decidido que haveriam de o ser. Do enredo faziam parte alguns facínoras: um traidor, soldados, juízes, um pretor, etc, etc. Farto de representar... Deus optou por morrer numa cruz como se fosse um homem. E depois de se fingir morto ainda espantou a humanidade ao fingir-se ressuscitado! E com isto criou uma religião infantil de nome cristianismo.

P. S. Isto não foi escrito pelo Guerra Junqueiro! JAJAJAJA!!!

10:12 da manhã  
Blogger Lord of Erewhon said...

Ó Vitor, o Bacon era ateu???? Independentemente do que o homem Bacon dizia de si... achas que era um ateu????
P. S. Onde enfiaste o Santo Agostinho?

10:15 da manhã  
Blogger Lord of Erewhon said...

Se Jesus dava traques? Não entendo... esse blog era do josé Saramago?? JAJAJAJA!!!

P. S. Não tragas as conversas de taberna para aqui... Só se for para rirmos da idiotia alheia! A questão dos «traques» é - em termos aristotélicos - acidental... e nenhuma metafísica dos acidentes é boa metafísica!

(E agora voltem a ler este meu comment como se não soubessem Aristóteles! JAJAJAJAJAJAJAJAJAJAJAJAJAJAJA!!!!).

10:24 da manhã  
Blogger Lord of Erewhon said...

(Vitor... espero que rapidamente evoluas para o estádio de discernimento a que o Goldmundo chegou acerca da minha pessoa... Ao menos conclui de imediato que não sou um puto heavy de 20 anos! Mas que isso não te assombre o sono... a roda do tempo cada vez produz menos singularidades como eu... um «demónio culto»...).

10:27 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Talvez o desafio seja esse mesmo: descobrir um Deus perfeitamente real que se sujeitou ao perecível e ao acidental. Segundo o aristotelismo, tal é uma contradição; segundo o cristianismo, tal é um paradoxo...

2:16 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Desde o início, o cristianismo esteve consciente das dificuldades de interpretação da sua proposta sobre Deus. No confronto com o helenismo, a grande tentação foi atenuar a divindade de Jesus Cristo. Porque se via a encarnação como indigna de um Deus, e sua paixão como algo de inadmissível, tentou-se resolver o problema atribuíndo a Cristo um corpo de aparência ou um sofrimento fictício.
Apesar dos docetismos e arianismos, de ontem e de hoje, continuamos a afirmar: Verbum caro factum est...

3:07 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Anónimo.

Nem mais.
Não conheço esse Adolphe Gesché, mas vou espreitar a coisa ;)

Obrigado, e um abraço.

4:27 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Monseigneur.

1.Pois, a minha versão é evidentemente outra. Não há aborrecimento no céu, visto que não há temporalidade extensa. Do ponto de vista da eternidade, todos os séculos são um instante, poisados na mão da Deus. A relação entre a temporalidade absoluta (ou intemporalidade em que repousam todos os séculos) e a temporalidade sucessiva – é um berbicacho. Mas Deus daí decide. (A forma verbal presente do indicativo, ainda é a mais adequada para a eternidade…)

2.A auto-limitação a que corresponde a encarnação é real. Jesus não precisou de fingir: participa real e verdadeiramente da confusa natureza humana.

3.Que raio, e terá isto sido escrito pelo Antero?... :)

4.Bacon… decididamente ateu e anti-místico. Do seu ponto de vista, evidentemente. Isso é consistentemente reiterado entrevista após entrevista. A colocação do seu ateísmo no meu ponto de vista cristão… não lhe cabe a ele. Tenho tendência para deixar os outros à sua alteridade…

5.O Aurélio Agostinho? Anda sempre comigo… Eh eh…

6.Eu sempre me senti em casa na taberna, em bibliotecas e nas igrejas… ;)

7.A questão do traque não é acidental – tem que ver com a mortal corporeidade.

Sem Aristóteles: O Saramago é uma seca. (Tenho que o ler com mais atenção?…:)

8.Um puto heavy de 20 anos não pode ser culto?... Mas a tua pertinência mostrou-se quase de imediato (e até logo no post da foda colectiva…)

9.Tudo me assombra o sono :)


Lux Máxima!

4:47 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Anónimo.

E havemos de O continuar a afirmar!

;)

Abraço.

4:49 da tarde  
Blogger Lord of Erewhon said...

JAJAJAJA!!! Tu és um finório, bem como o outro... e o outro do outro!

P. S. Só vos peço que não me exijam que também cure os meus coxos! (Embora... a casa de Cagliostro em Paris estivesse cheia de muletas... que lá deixavam os muitos que foi curando!:)=

8:52 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Pois, pois, mas não sei se na finóriozice... te ficas atrás ;)

11:48 da manhã  
Blogger freefun0616 said...

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