segunda-feira, janeiro 09, 2006

Recordação 2

Depois lembro-me, bem antes da primeira reza, devia ter cinco ou seis anos (tendo mudado de país aos seis, é-me fácil situar as memórias dum e de outro tempo e lugar, o que não significa evidentemente que correspondam ao real passado mas à sua arrumação na narrativa caótica da memória e da imaginação - em rigor, talvez nem signifique que tenham ocorrido). Lembro-me de estar frente à televisão a ver um filme, a televisão a preto e branco e a casa vazia, quero dizer, apenas eu e a televisão estamos nas imagens da memória, assim uma atmosfera de tarde outonal ou talvez invernosa e eu ali sentado num sofá individual, frente à televisão a preto e branco com um leite com chocolate quente a fumegar nas mãos, ali comigo próprio sem mais ninguém aparentemente. (Curiosa e subitamente aqui hesito, e aparece-me incerta como uma intermitência a minha avó paterna. É engraçado isto da memória. Portanto é à escolha: talvez a minha avó sentada silenciosa noutro sofá talvez tricotando ou passando pelas brasas e distraída ou entediada ou melancolicamente olhando de vez em quando para o televisor). Certo aqui e na memória é que o filme se passava no séc. XVII ou XVIII, as roupas e modos antigos e o desbravar dos bravos brancos nas culturas e terras africanas, americanas e asiáticas, desbravando como se sabe na destruição e apropriação física e cultural, mas nada disso me era presente ou consciente naquele momento com o leite com chocolate fumegando e a minha avó ou não, quero dizer, nada disso importa para o sentido da presente recordação. O que releva significado é estar no ecrã um garboso moço moreno e com um delicado bigode (seria o Errol Flynn?), acompanhado por um qualquer Sancho Pança de cuja figura não me recordo, numa situação de refrega de espada e murro e morte. Estão numa floresta ou selva, e conseguiram fugir dum perigo de morte qualquer, um combate ou um aprisionamento, não faço a mínima memória, mas qualquer coisa de mortal. E alguém ficou para trás. O garboso moço (no qual projectei uma identificação prevista e organizada por quem fez o filme, e que fez dele o garboso herói) diz ao secundário e descartável e esquecível acompanhante (não herói, evidentemente): Vou voltar para trás. E o outro, com todo o bom senso e razoabilidade dos não heróis, replica que não, que é completamente irracional, que é dar a morte a todos porque não há hipótese nenhuma de salvamento (os inimigos mortais são um grande exército ou guardam uma inexpugnável prisão), e por aí fora, e responde o garboso herói com um sorriso alegre e confiante: Eu sou um cristão, não penso nem ajo assim.
E não me lembro de mais nada do filme, o que mostra, para além da distância temporal, o relevo com que esta particular cena em mim se imprimiu (e já agora, se algum ou alguma detective cinéfilo ou cinéfila, com tão pouca informação conseguir identificar o filme e mo dizer... ) A verdade é que me marcou de tal modo que ainda hoje conservo a imagem desta precisa e preciosa cena, deste instante em que ele profere esta frase sorrindo no meio de árvores e abrindo os braços em evidente confiança de si, acho que até devo ter deixado o resto do leite arrefecer ou nem sequer o acabei. (Neste momento de recordação, a minha avó nem vê-la, como é de significado, e nem o outono ou inverno ou a sala, nem tão pouco a televisão; neste momento, estou realmente eu e o garboso herói à minha frente abrindo-me o início dum horizonte de sentido.)
O que me parece importante, para além do significado vivido impossível de transcrever em palavras, são as determinações cristãs que esta cena apresenta: a alegria confiante de quem se move por amor sem atender aos resultados.

E toda a ética que não se funda nisto, não passa, na melhor das hipóteses, dum colete de forças contratualistas.

12 Comments:

Blogger Ver para crer said...

É isso mesmo: os bons exemplos marcam as pessoas tanto ou ou mais que os maus. Para isso apenas uma coisa é necessária: que «outras coisas» não atrapalhem. E essas podem ser de variada ordem.
Um abraço.

4:34 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Ver para crer.

Pois é, a providência e as nossas resistências e medos...

E vê lá que ontem à noite na RTP 1 passou o "Captain Blood", com o Errol Flynn! Só vi o início (que raio, às 2 da manhã, mas não se trabalha de manhã neste país?!...), e embora não me pareça que seja o tal, claro que o Errol tinha para lá umas coragens heróicas. Ah ganda Flynn!...

Abraço.

11:28 da manhã  
Blogger jorge said...

clap! clap! clap!

4:23 da tarde  
Blogger jorge said...

epá tambei apanhei o flynn de raspão ! abraço.

4:24 da tarde  
Blogger Manuel said...

Mais um belo naco de prosa, com coisas das que importam dentro...
É bom voltar. Obrigado pelas visitas.
Abraço

10:07 da tarde  
Blogger Pensar Cristo said...

Caro Vítor Mácula:
Linkei o "Ser Cristão" no http://pensarcristo.blogspot.com

Espero que não se importe. Convido-o a visitar-nos!

Um abraço,
AVC

11:44 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Ei, Jorge, clap, clap!

Fixe flynn flies!

Dá Deus dias!

E aberto abraço!

11:48 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Manuel.

E que de dentro alimentados, demos frutos dentro e fora.

Bom regresso, e um abraço.

11:49 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Pensar Cristo.

De modo nenhum, e considere-se linkado também.

Um abraço, e até já!

11:50 da manhã  
Blogger Caio Kaiel said...

Olá Vitor...Maravilhoso texto, perfeito para uma sexta-feira preguiçosa - deixei-me ser levado e eu mesmo me vi na poltrona frente a televisão, o chocolate quase tomei todo.

Muito bom.
Deus te abençoe honrado Herói Cristão

3:44 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Alô, Pescador, e ora então bom fim-de-semana!

Abraço em Cristo.

4:27 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

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1:47 da tarde  

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