sexta-feira, janeiro 20, 2006

Fado Donald

Ofertado ao sr. prior
Pelo Donald, uma expressão da vida vivida;

E à MC, pelo Vítor, uma incitação à força e à reflexão.




Deus meu. Hoje, levantei-me de manhã zonzo, e com um sabor a metal na boca. Uma pessoa acorda com cada sabor, eu é um diferente cada dia, vá-se ver... Fui até à janela. Do outro lado da rua, carneiros deslizavam parede abaixo dum prédio. Não pareciam mal ou sofridos, não, até pareciam alegres e despreocupados como flores na primavera. Até parecia que cantavam, mas aquilo reunido ao sabor metálico que me palpitava na boca enervou-me, leve e vagarosamente como um gato a espreguiçar-se, mas enervou-me. Já sabia que não ia ser pêra doce a minha lavagem matinal, estava-se mesmo a ver. Nisto, antes sequer de chegar à casa-de-banho, tiniu a campainha da porta, um som forte, repentino e estridente que até me fez saltar, e que embateu na sensação do sabor metálico e dos carneiros e do raio que parta fazendo-me dar três voltas para me acalmar, o que só me enervou ainda mais. Quase que gritei, mas contive tudo, quer-se dizer, era manhã, temos de ter cuidado no modo como começamos o dia, todo o resto do dia é contaminado pelo início.
Respirei fundo, e dirigi-me à porta, os meus passos eram pesados, ouviam-se graves e em bom som mas eu não liguei, estava decidido a começar o dia na boa direcção, virado para o sol, como se costuma dizer, e não eram ninharias que me haviam de desviar. Com uma segunda, profunda e calma respiração, abri a porta, e paf!, vi-os e percebi logo que estava fora do comando de direcção do dia, e então paf!, fechei a porta e encostei-me a ela, por agora nem queria saber, precisava apenas de respirar fundo mais umas milhentas e quantas vezes, mas tinha de ser rápido, muito rápido, já tinha percebido bem a coisa.
O cavaleiro experiente sente o toque de nervos do cavalo antes de este se agitar, e eu estou habituado a cavalgar os dias, percebi logo que o dia estava mais nervoso que um catecúmeno, estão a ver, eu pressinto bem os ritmos, e quanto a mim o dia já ia a galope, e então respirando lá me ergui para espreitar pelo monóculo da porta, e lá estavam eles ali postados, três de fraque ali postados mesmo paf!, mais paf! que flocos de neve numa tarde de verão.
Não havia nada a fazer, eu já sabia, ali estavam os três paf!, assentando-me nos nervos como cacos de vidro, eu já sabia que por mais que fizesse eles iriam entrar e fazer o que tinham a fazer, entrariam pela janela ou pelo buraco da fechadura, ou jorrariam dum jornal que eu lesse ou do forno que eu abrisse ou até da minha própria cabeça à primeira mínima distracção interior. Sentia-os nos meus nervos de tal modo que fugir-lhes seria fugir de mim, o que como se sabe é tarefa para várias vidas - e eu já desbaratara grande parte da minha, não me podia armar em perdulário.
Acelerei os sinos da histeria que tocavam em mim até os esgotar, e volvido à desejada boa disposição inicial, abri a porta com o mais optimista dos sorrisos. E sem mais, entraram os três, se bem que melhor seria dizer que irromperam, que se esparramaram, disseminando-se pela minha sala não apenas como três energúmenos saídos dos interstícios da chatice para vir torcer-nos a espinha dezoito vezes, não, isto era a cavalgadura mais pura no galope mais doente possível, ele era uma tribuna, eles eram uns jurados, eles eram mesas e cadeiras cuja voz se adivinhava de falsete, eles eram jornalistas e advogados e um juíz num cadeirão, mais cinzento que o fuzilamento duma criança de dois anos, enfim, estávamos entre íntimos, não era preciso definir muito a coisa, meia dúzia de larachas serviram para definir o cenário. Ainda eu não estava em mim da transformação da minha sala, operada por aquela magia doentia, que um daqueles malmequeres apodrecidos parece dirigir-se a mim com a sua voz de pastel de nata de ante-ontem:
- Chamamos a testemunha 5 B, e olhava para mim fixamente, claro, eu percebera de imediato, quem raio haveria de ser a testemunha 5 B senão o vosso excelente servidor?... Quanto a mim não eram precisas explicações, só tinha pena de nem sequer ter tomado o pequeno-almoço, era a única coisa que me estava a fazer falta. Enchi o peito de ar para ganhar coragem e alguma dignidade, e avancei para o que me pareceu ser o banco das testemunhas, enfim, mais parecia um bidé, mas pela posição, mesmo à frente ao lado do juíz, bem, vocês conhecem os filmes, só podia ser ali. Mas não é que ao terceiro ou quarto passo que eu dou, catrapum!, abate-se a escuridão, não, não estou a falar de poesia, nenhum mistério nem indicação do invisível, não, bruto escuro, físico, pesado, catrapum! e fica-se sem ver nada, dois olhos que luzem imbecis e inúteis como sinais de trânsito para vacas cegas. Como é costume, um momento de silêncio veio atrás da repentina escuridão, acontece o mesmo no final das cantigas, uma sensação de suspensão, quase agradável. Mas eu não era pato para me iludir, já batera uns quantos dias. Sabia perfeitamente que era apenas para cair com mais violência depois desse floreado momento de silêncio. Cair eu ou algo em mim com a fúria do bruto escuro repentino. Eu conhecia as rimas, não precisei de ir à escola, cá as tenho no coração.
E não foi preciso esperar muito, corpos começaram a embater em mim, vagarosos, nada violentos, poder-se-ia dizer que quase acariciavam, e o silêncio mantinha-se como o mais eminente dos perigos, e eu tentando-me atento em completa cegueira, tentando retorquir-lhes com movimentos semelhantes, enfim, harmonizar-me com o momento afim de ele não trinir estridentemente contra o meu duvidoso bem-estar, procurando uma rima que anulasse a que latejava de encontro àquele silêncio escuro, mas era em vão que o fazia e eu sabia-o, os sons de embate começaram a romper o silêncio na medida da crescente violência dos choques e o sufoco cercava-me cada vez mais patente e evidente e gritei Ei! Eu sou a testemunha 5 B! como se isso fosse importante mas aquilo queria lá saber, e felizmente que os dentes irromperam no meu bico e desatei a morder e a bater com todas as partes do meu corpo, e atirava-me e debatia-me e empurrava e aquilo aumentava cada vez mais violento, e Sou a testemunha 5 B! afogava-se-me na garganta arfante e na inutilidade. Se aquilo continuasse muito mais tempo matar-me-ia, senti-o em todo o eriçar das minhas penas, eu que já morri várias vezes e por isso sei que é sempre desagradável e que se tem sempre medo, e foi então que irrompeu a luz ou a minha pupila se tornou uma cratera anulando a escuridão pois os via, porcos, patos, cães, gatos, ratos, vacas, touros e sei lá mais o quê babando-se e rosnando e tocando-me com as patas, com as cabeças, com os cotovelos, pernas, peito, costas, bocas, olhos, tocando-me no corpo todo com o corpo todo e é como se o por fora fosse o por dentro, como se metessem as mãos na minha alma e a revolvessem e a consciência às voltas e reviravoltas numa tontura toda de vidro e explosão e já não há nada de nada de nada excepto uma angústia aguda e sufocante num aperto sem fim e o pensamento todo é apenas um grito e disposição para fazer tudo mas mesmo seja o que fôr para calar esse grito de vidro e angústia, por favor, por favor, por favor, e então ouço Está quase, a testemunha ideal, é só apertar mais um pouco o garrote e nada separará a acção dele da nossa vontade, e percebo e grito Já está! Já está! A relação síncrone e perfeita como um paixão submissora! As mentes siamesas obrigadas no mútuo ódio à concordância absoluta! Já está! Já está! Já está! E catrum!, caio como uma pedra num poço e os sapos olhando, catrum! no bidé das testemunhas, estatelado e estafado murmuro: Sou a testemunha 5 B...
- Sim, diz o juíz, já está em condições. Quando quiser...
Apreciei a liberdade para me recompôr, parecia-me que o pior já tinha passado, a minha respiração foi voltando ao normal assim como o parco prazer de estar vivo e principiei a testemunhar:
- A nossa sociedade está desenvolvida a tal ponto que a solidez das infra-estruturas permite desorganizá-la em diversos pontos sem que nenhum abalo se note no todo. Quando se torna evidente a desorganização, já é tarde demais: o mal já está tão disseminado que só nos resta cair, como todos os impérios da História. É o que se chama queda cega. A atenção exigida...
- Protesto!, interrompeu-me o advogado de defesa, A testemunha está-se a definir a si-própria e nada está a dizer do sucedido.
- Protesto aceite, disse o juíz, e volvendo-se para mim: Faça favor de cumprir a sua função.
- Sim, senhor, disse eu ajeitando-me na cadeira. Tive a impressão que talvez o pior não tivesse passado mas logo afastei essa nauseabunda ideia e continuei com toda a confiança que consegui: - As sociedades definem-se pelo modo de eliminar cidadãos extraviados. As piores sociedades, isto é, as que menos defendem os indivíduos que as constituem, são as que atingiram um tal grau de civilização que não precisam de matar para eliminar. A capacidade de...
- Protesto!, novamente o advogado de defesa, A testemunha está a definir o lugar onde se encontra e nada está a dizer do sucedido. E o juíz esticou o pescoço, devia estar mesmo furioso porque o esticou três ou quatro metros e os seus olhos ficaram a meio centímetro dos meus e grandes, enormes, tão grandes quanto pequeno eu fiquei, minúsculo, tão pequeno quanto tenebrosa foi a sua voz, tão tenebrosa quanto um furioso oceano: - Não me diga que ainda não está em condições de testemunhar?!... Estou, estou, respondi com a voz tão fina como um fio de água e tentando-se o mais submissa possível, como a duma testemunha ideal. A sua cabeça voltou para perto dos ombros com um flop! e em suores frios tentei satisfazê-los:
- Foi um estranho espectáculo. As praças iluminadas por dentro, cheias de estranhas respostas. Como bolos bem quentinhos. Bolos-reis-para-enjoar. Ele nunca lhes apanhou o jeito.
- De qualquer modo, verdade fixa é que não, disse o advogado de acusação, está-se aqui com mais gente. E é a dividir por todos.
- Não é assim, repliquei, eu acho que ele estava lá, sentado com mais gente. O desembocar de um tempo de paz é um tempo de agonia. Não há guerra mas às danças faltam centenas de anos e milhares de meias-noites, sabedoria. O que nos vale é que a memória é louca, ataca qualquer um.
- Iiiiiiiiiih, vocês viram!?, gritou o acusado, As abóboras! Aquelas! Ali! As abóboras!... Hei-de comê-las! Hei-de comê-las! Talvez este domingo...
- É a merda, é o que é, a merda, e chega-nos sempre aos joelhos, disse o juíz, aquilo estava mesmo a correr bem, eu apanhara-lhe mesmo o jeito, e continuei É o que nós sabemos todos: o gelo causa despistes. Choques em cadeia. Um T.I.R., faltam-lhe os travões, vai por ali abaixo... Estão a ver, às vezes nem é preciso gelo... De qualquer modo, aqui, apenas uma lágrima pode provocar avalanches. Tudo o que vivemos já foi vivido. Não há maior cumplicidade que a inimizade... - E estaquei, biquiaberto, raios, aquilo era o cúmulo do engano, apercebi-me que não estava num tribunal, mas onde tinha eu a cabeça, as batas brancas, os sorrisos acolhedores, o odor a amoníaco, porra, aquilo era um hospital, onde raio tinha eu a cabeça?...
- Então, conte-me coisas, disse o juíz que afinal era médico.
- É a unha, disse eu, está encravada, e suspirei de alívio e satisfação, era tão bom estar num sítio com pessoas em que se podia confiar, em quem se podia depositar problemas com a certeza de que o iram resolver, A unha encravada, repeti, e recostei-me fechando os olhos e entregando-me nas suas mãos, os dentes tinham desaparecido do meu bico.
Quando abri os olhos o terrível voltou a abater-se sobre mim, a brancura e a ternura tinham desaparecido e no seu lugar estava uma ferida enorme e carcomida, um hiato de carne e sangue e pûs, uma pasta de odor acre que me invadiu o cérebro cortando-me a respiração como um vómito mortal e que me sugou como um animal voraz e feroz, merda, aquilo era uma repetição da preparação para testemunhar, o mesmo sob outra forma, merda, e voltei a debater-me e urrei e lutei por entre pústulas negras e borbotos purulentos e jorros de sangue, aquilo já não era galope, era algo de mais, nem sei como é que o dia ainda não se desintegrara, antes o tribunal que o hospital, pensava enquanto me debatia mais e mais sem respirar e com um nojo de preencher mil pesadelos, antes o tribunal que o hospital, e quanto mais me debatia mais me afundava e sufocava, até que algo me empurrou, sim, um forte empurrão que me fez atravessar aquela pasta toda e encontrar-me no ar com um flop!, olhei para baixo e reparei que tinha sido cuspido por uma baleia, Eh, Moby Dick, gritei-lhe eu, Estás toda podre por dentro!, e comecei a cair, a cair, a cair... Felizmente, era a minha casa que eu via lá em baixo. Talvez o dia estivesse acabar.
Catrapum! Furei o telhado e caí na minha cama. De imediato me levantei e corri até à janela. Nem queiram saber o alívio que senti quando vi que já era noite. Sim, o dia acabara. Pensei em esquilos pedalando em rosas, em frascos enamorados de cafeteiras, loucamente apaixonados, e sorri. Mais um dia que acabara. Mais um dia neste mundo de canículas e mandíbulas. Pouco se fez, como sempre. Deviam longa-metrar os dias, que eles como estão não dão para nada: tem que se recomeçar quase tudo do início no dia seguinte. Voltei para a cama e olhei para cima: o telhado recompusera-se. Decididamente, podia ficar descansado: o dia acabara mesmo. Outro dia, hei-de ser a revolução, pensei antes de adormecer. E os dias nunca mais serão assim, incompletos, injustificados, ao deus-não-dará. Mas por ora, a única coisa que desejo, é não sonhar.

17 Comments:

Blogger MC said...

Tou esmagada. Nem sou capaz de dizer:ui!

Vou aviar mais uns fregueses no jardim, quando estiver recomposta, volto.

2:54 da tarde  
Blogger aquilária said...

caro donald, há dias na vida dos patos e (da gente) que são mesmo um pesadelo! esse trio de fraques, logo julguei serem cobradores (talvez encomendados pelas finanças, quem sabe). só depois, ao continuar a leitura, percebi, mas pensei: é tudo a mesma coisa, fraques em cabides com coração de madeira, da mais dura!
certo, certo, donald, é que a revolução já tu a começaste no teu sonho, ao pôr dedo nas feridas, acusador e testemunha.essa é que é essa!

e agora vou-me para fim de semana, não sem deixar votos de muito bons e alegres dias, com sol-margarida.
festinha meiga no teu bico, abraço ao dono do blog, mc e futuros chegantes.

e ao tal prior desejo, sinceramente, que o Divino Espírito Santo ilumine, um dia, a sua alma. e pronto.

3:32 da tarde  
Blogger MC said...

Querido Vítor, meu amigo. tens de me passar a receita da Aquilária, porque eu sei fazer link para o blogue, mas não para o post. E às vezes dá jeito.

4:23 da tarde  
Blogger MC said...

Vítor o meu prior não tem endereço de e-mail, nem deve saber ligar o computador, mas um domingo que venhas por aí a cima, combinamos e vamos oferecer-lhe esta tua obra. Que dizes?

5:15 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Alô, MC.

Ajuda da insular Aquilária já reencaminhada para o teu mail.

Quanto ao prior, como é que é?... Teríamos que lhe dar o contexto também (isto é, porque e como irrompeu a fúria da donaldiana e descabelada criatura) ou apenas a descrição do seu desgraçado dia de pato, sem mais?

Quanto a mim, estou disponível para ambas.

Es solo combinar, carago!

Abraço.

5:35 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Ah, Aquilária, qua qua, quão raro é entre os humanos compreenderem a minha insigne tarefa mítica e patolesca de os ajudar na sua pobre confusão a tomarem consciência de si e da vida, qua qua!

Nem sabes como é bom sentir-me compreendido, as minhas penas e músculos serenam e um sorriso adoça o meu bico e a minha mente, Vê lá tu que já chegaram a dizer-me que eu era má influência para as crianças, devido ao que parece à minha irascibilidade - como se esta não fizesse justa parte de se estar vivo! Qua qua, mas que pedagogia é esta, humanos para onde ides?! Escutai-me, escutai-me!...

Votos dum fim de semana vivo e belo para ti, e o dono do blogue manda-te um abraço, com um ar preocupado e com gestos indicando para despachar-me que já estou a abusar. (Desconfio que ele não confia totalmente em mim...), e eu mando-te beijos enternecidos com o meu bico serenado e adoçado.

5:43 da tarde  
Blogger Ego ipse said...

Isto é o que dá ler Kafka ao jantar! Não direi bons sonhos... mas bom fim de semana

7:21 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Ego Ipse.

Eh eh eh!

E ter acordado de manhã com um fado da Amália, e a tarde vendo as curtas metragens animadas do famoso pato... ;)

Abraço, e bom início de semana!

9:52 da manhã  
Blogger Pastor Caturra said...

Abençoado seja você por nos possibilitar tão agradável e proveitoso sítio! Quando tiveres algum tempo, visita o meu blog e lê algumas palavras que Deus-que-a-todos-inspira me inspirou a postar na internet. Amém.

11:37 da manhã  
Blogger Ver para crer said...

Vejo que gostas da escrita. E sabes do que falas.
Um abraço.

8:32 da tarde  
Blogger aquilária said...

vitor, obrigada pela mensagem deixada ontem, 23.01, na ribeira.um grande abraço

12:52 da tarde  
Blogger sonia said...

Um texto sentido e muito ritmico... gostei.
beijinhos

9:38 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Pastor Caturra.

OK. Até já.

Abraço.

10:20 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Ver para crer.

Pois, a malta aqui gosta de literatura, essa irónica imitação e provocação da vida ;)

Abraço.

10:21 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Alô Aquilária.

Olha, calha mesmo bem:
um abraço “larger than life, and twice as natural” ;)

10:22 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Olá, Sónia.

Gosto que gostasses do doidivanas Donald eh eh.

Um grande abraço.

10:22 da manhã  
Blogger freefun0616 said...

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