quarta-feira, outubro 19, 2005

Diversidade

Talvez já nada no mundo tenha possibilidade de ser um campo unificado. Embora não se possa dizer que, por exemplo, os africanos se libertaram económica e politicamente, é inegável que em termos de validades discursivas das diversas culturas, um alargamento do “quadro de referências” ocorreu; por outro lado, este alargamento, embora ainda muito integrado a partir duma cultura “dominante” (a “ocidental”), contextos referenciais imanentes ao alargamento se introduziram no campo discursivo e cultural (assim o rock sem os blues e este sem etc etc). De modo similar, adentro da mesma cultura, o centro referencial multiplicou-se – deixando assim de haver centro. O que não significa que não haja “centros” com mais poder (meios, dinheiro, apoios governamentais, etc) do que outros. Significa sim que, aparentemente, uma libertação discursiva das culturas se patenteia mundo fora, mais aqui e menos (por vezes muito menos) ali.

(O “aparentemente” é muito importante, mas para o caso não falarei disso.)

É evidente que esta macro-generalização não dá conta adequadamente da realidade; serve no entanto para situar o que quero dizer.

Dá ideia que, estando nós continuamente confrontados com identidades diversas e sua colocação flutuante no todo em que pensentimos inserir-nos, em vez de nos abrirmos ao outro, executando a nossa singularidade em contacto e conivência com a do outro, nos crispamos e tomamos o outro como uma ameaça à nossa identidade – e isto, sem um gesto ou atitude prévia de agressão do outro. Desatamos aos gritos e desacatos como se a nossa identidade tivesse sido invadida e sacudida nos seus fundamentos. Consideramos a estranheza do outro como uma ameaça, e tornamo-lo inimigo. Este pânico generalizado tem consequências algo peculiares.

A busca desesperada de identidade anula totalmente a singularidade vivida (a minha identidade passa a ser a de membro do clube gay contra etc, do clube cristão contra etc, do clube desportivo contra etc, etc etc e dentro desses clubes da facção X contra a Y e por aí fora). E, como se sabe, só as singularidades pensam e reflectem, dado aliás que só as singularidades existem. Para haver comunidade, cada elemento deve ser uma singularidade e não subsumir-se completamente numa identidade colectiva que só se valida como segundo momento. Tanto as singularidades como as comunidades perdem vida, tornam-se mortos, e morte. Vivo, neste contexto, significa que a identidade é constituída por um conjunto de constantes, aliado a um conjunto de variáveis – e que estas permitem a interacção dinâmica com o redor. A tendência a tornar as variáveis constantes num suposto reforço da categoria identitária produz entes petrificados que só podem destuir o redor à medida que se movem e não respiram. E só as variáveis permitem o contacto vivo que permita “encontrar” ou “produzir” fundos comuns e diferenças reais, e não de mera representação sem esclarecimento. E o facto de se usar a torto e a direito um termo bacoco como “tolerância” é para mim indicação do mesmo disparate, só que aqui travestido de comunicação e inter-integração. Tolerar, é precisamente definir como inaceitável mas que por força das circunstâncias se “deixa estar”. Não é o que as pessoas a maioria das vezes querem dizer quando usam este termo, bem sei, mas de qualquer modo…

Todas as “áreas” se podem fechar ou definir como um “mundo”, um conjunto. E adentro destes crisparem-se facções num processo de totalizarização duma parcialidade com pretensão a subsumir em si a totalidade do conjunto. Trata-se aqui duma inversão da dinâmica da vida, em que a parte se sub-ordena ao todo. Como se orienta e determina esse todo sem despotismo parcial, é uma das questões das questões – do cancro biológico às ditaduras e fundamentalismos e etc e etc.

Pode-se suspeitar que é neste contexto que o Magistério Vaticano é teologicamente mais fechado e dogmático do que o era no séc. XIII. Agora, que algum poder político lhe foi retirado e que o mundo se pluralizou local e globalmente (comunicações e transportes) a identidade católica sente-se nalguns sectores ameaçada e solidifica a sua identidade numa assustada contraposição às posições ou identidades diversas. Ao lermos o catecismo “católico” é curioso encontrarmos repetida e insistentemente remissões para os Padres e Doutores da Igreja, com especial relevo para Agostinho e Tomás de Aquino, e muito poucas para teólogos contemporâneos, assim como quase nenhuma para as ciências naturais e humanas modernas. É evidente que Agostinho e Tomás são referências ímpares e incontornáveis na cristandade, mas dá-se aqui uma anulação das referências, visto que a confrontação e discussão com as diversas teses e posições filosóficas, científicas e religiosas do tempo em que viviam lhes é fundamentalmente característica. – e que tal atitude é quase nula no discurso do Magistério. Digo bem confrontação, e não concordância ou discordância. Não se trata de ser “mundanamente” do seu tempo, mas de viver nele e nele se situar, ser contemporâneo de si próprio vivo.

Por outro lado, sendo a adesão religiosa uma adesão a uma concepção da vida e de si-próprio que passa a orientar os nosso pensamentos e actos, ela é de algum modo totalizante da pessoa. Não há – no limite – parcialidade alguma da pessoa que fique “fora” dessa concepção. E mesmo a sempre presente e mais ou menos saudável dúvida e questionamento reside dentro dessa concepção que interroga e questiona. Qualquer coisa do género. A atitude religiosa é algo de fundamental – não se trata de ter uma opinião, de lançar hipóteses para discussão, de definir interesses temáticos etc, mas de algo que nos implica sempre pessoalmente e nos situa no pensamento e na acção, com uma abrangência existencial que se quer total. Ora, evidentemente que numa implicação deste género, o que está em contraste nas posições diferentes tem a tensão intelectual e disposicional que corresponde à implicação pessoal que está sempre em jogo. Daí ser sempre um tema “quente”. A paixão e a violência andam sempre de mãos dadas.

Ainda por outro lado, passa-se muitas vezes que a estrutura pessoal é projectada societalmente, ou se preferirmos a subjectividade (não no sentido que por vezes se dá hoje de relatividade e aleatoriedade, mas, pelo contrário de algo que diz respeito e ocorre no “fundo” e totalidade de si próprio) é objectivada em instâncias gerais. Aqui dá-se uma não-separação entre variáveis e constantes, particular e geral, etc.

Mas isso não se passa apenas na religião.

Esta coisa da multiculturalidade é, para além de um lugar comum, algo de autentificante, sobretudo quando aliada às possibilidades tecnológicas e culturais de comunicação e informação. Imaginemos que esteja a ser dado e construído e defendido um espaço de liberdade em que do fundo geral das diferenças e semelhanças genéricas brotem as concretas e particulares diferenças. Para ficarmo-nos pelo “exemplo” do cristianismo, sempre houve diversos modos de ser e viver-se cristão (dentro de um núcleo constante de identificação), mas hoje a assumpção e visibilidade da realidade vivida e pensada de cada um torna-se um pouco mais possível ou visível. Acrescente-se que o recrudescer da paleta de expressão e representação também permite mais expressões e representações que cubram o vivido.

Mais possibilidade de realidade vista também serve para encobri-la – em modo de exemplo e papo-seco, mais liberdade de expressão permite mais mentira e desinformação e demagogia.

Num mundo globalizado, não há exílio possível – já dizia o outro.

Nota específica de papo seco: Dadas umas reacções bloguistas (inclusive minhas) relativamente ao “tema” homossexualidade lançado por “aí” penso que pelo Timshel ou pela MC ou pelos Dois dedos de conversa ou pelo CA ou “whathever”, digamos que “percebo melhor” agora o uso do termo “fracturante”. A questão cristã que se levanta é: essa tensão e crispação constitui batalha jesuânica ou divisão demoníaca?...

3 Comments:

Blogger MC said...

Caro amigo
tenho de ir tirar um curso para te poder "acompanhar". Não sei é qual.

Gostei da tua crítica ao Catecismo. Tens razão. Embora haja na história do cristianismo pilares que são fundamentos importantes, não se esgota aí a comunicação de Deus.
Ouvíamos no domingo que o rei Ciro, sendo um "pagão", foi instrumento de Deus. Hoje, acontece o mesmo. Será que não nos esquecemos disso tantas vezes?
Sabes as críticas que algumas vozes levantam que a lógica da igreja é uma lógica de poder, espiritual embora, e não uma lógica de serviço?

À tua última pergunta não sei responder. Creio que é uma mistura das duas que sempre nos move.

Eu, pessoalmente, não gosto da palavra tolerância e das acções que geralmente lhe estão ligadas. Tolerância supõe que uns estão "acima" de outros. Isso não acontece. Somos todos sobejamente pecadores. Pessoas que se fecham à salvação que nos vem de Deus.

Abraços

8:08 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Cara, cara MC.

Qual curso qual cursapuça! Nós acampanhamo-nos uns aos outros com o que cada qual é e faz de si. Como a Thinky_Girl disse mais abaixo, o estudo é importante para a fé – mas cada qual o faz nas sua áreas, necessidades, situações, etc, e no melhor dos casos, vocação vivida. Faz parte da orientação de cada um, cada qual tem o seu caminho de estudo, de pensamento, de acção – de convívio com os outros, com o redor e com Deus.

Qual curso qual cursapuça! O teu comentário ao caso do rei Círio e a tua resposta à “minha” pergunta mostram quão bem andas a estudar.

A minha discursividade tem que ver também e com certeza com fechamentos à salvação.

No entanto e evidentemente, tira os cursos que te chamarem, através das minhas confusões ou de seja o que for.

Um grande abraço.

12:49 da tarde  
Blogger freefun0616 said...

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