terça-feira, outubro 18, 2005

Bíblia

A leitura directa dos enunciados bíblicos - isto é, sem exegese histórica, temática e estílistica ou, se preferirmos, muita humildade, oração, reflexão e diálogo- para além dos problemas teológicos que põe, impediria qualquer execução da “doutrina” que deles se pudesse retirar, dadas as inúmeras contradições em que se cairia – e nem é “preciso” ir ao Novo Testamento, basta “comparar” certos textos proféticos (como o segundo Isaías, por exemplo) e os textos jurídicos. A ciência, a política, a mitologia, etc, usadas nos textos bíblicos são as da época e regiões. A “novidade” ou especificidade judaico(-cristã) é a de passá-las pelo crivo do Deus único através da oração e da reflexão. É nesse sentido, entre outras “coisas”, que a inspiração em jogo é relacional e circunstanciada.

No caso do Novo Testamento, tratam-se de textos pastorais de comunidades vivas e dialogantes dos primeiros cristãos assim como de cartas dirigidas a essas comunidades. Não se tratam de textos de inspiração mágica em que a singularidade da pessoa inspirada desaparece e Deus ou o que for fala directamente em linguagem humana. Trata-se sim de inspiração dialogante e livre, em que havendo arrebatamento ele é consciente e não anulador da consciência. É o humano que escreve inspirado pela sua relação com Deus.Tratam-se de textos pastorais de comunidades vivas e dialogantes dos primeiros cristãos assim como de cartas dirigidas a essas comunidades. Não são textos mágicos. São textos de pessoas que se relacionam com Jesus vivo e com testemunhas directas da vida pré-ressurreição de Jesus, ou perto disso. São, digamos, discípulos de primeira mão, e daí a sua importância. São textos fundadores, e nós, como discípulos de segunda mão, devemos considerá-los como constante fonte originária de renovação. É aliás deles e a partir deles, equivocadamente ou não, que as críticas mais pertinentes à cristandade têm surgido.

A Bíblia não é nenhum preceituário. É Deus que é “omnisciente, omnipotente e omnipresente” e não os textos bíblicos nem as nossas visões parciais de nós-próprios e do mundo. O erro e o mal são “preço” da liberdade outorgada. A Bíblia não é a “lei de Deus: é o relato e expressão da relação histórica das leis humanas (o Decálogo não “caiu” dos céus directamente…), e de todas as outras determinações naturais e culturais, com o Deus vivo que nos quer conscientes e livres (enfim, mas quem conhece a Sua vontade?...)

Isso não significa que possamos “retorcer” as implicações da fé e da tradição como nos “apetecer”. Significa que determinadas e diversas contextualizações e horizontes de sentido são requeridos, pessoais e culturais.

A Bíblia é sagrada, precisamente por tratar-se do “resultado” da relação de indivíduos e culturas com o Deus invisível, indizível e inesperado.
Nesse sentido, a sua sacralidade dá-se na relação e através do humano enquanto espanto, anseio e terror amorosos.

A Bíblia é um conjunto de textos muito diversos escritos com Deus – contra Deus, em “favor” de Deus, distorcendo Deus, definindo Deus e sobretudo, desejando Deus. E em tudo isso, mostrando Deus indirectamente, chamando-O e chamando-nos a Ele.

A Bíblia, é o meu livro de ilha e cabeceira.

12 Comments:

Anonymous Anónimo said...

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5:04 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Isso me lembra a velha questão: a Bíblia é a palavra de Deus? 2 A bíblia torna-se palavra de Deus? 3 A bíblia contém a palavra de Deus?
Creio que há muita sabedoria na Bíblia, e que ela torna-se, mas trechos como de Paulo, ainda mais quando ele fala como homem, poderiam ser retirados da bíblia...risos... já isso nao acontece com os profetas... Acho que tz por isso Jesus não escreveu, a não ser na areia... Um abraço
Al
www.algebrim.blogdrive.com

3:43 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Caro Algebrim.

Sim, sim, sim – torna-se, na medida em que nos relacionamos com ela no pensamento e na prática de vida.

Quanto a S. Paulo, nesse caso, o problema é como destrinçar o humano do inspirado, o espírito da letra etc etc… Bem, não só mas também através do nosso “tornarmo-nos palavra de Deus” em contacto não só mas também com os textos bíblicos.

O profetismo é evidentemente muito específico.

E pois, na areia… que o vento apaga. Excelente!

Um abraço.

6:16 da tarde  
Blogger MC said...

Gostei da tua "leitura" da Bíblia. Tens de me dizer em que catequese andaste.:)

8:10 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Alô, MC.

Bem, eu ainda sou catecúmeno, e muita “coisa” faz parte da minha catequese – nomeadamente o teu blogue e comentários.

A catequese é confronto e diálogo, e não doutrinação – isto é, quando doutrina não catequiza. Cada um só se convence existencialmente a partir dos seus próprios pensentimentos e experiências. Só Deus doutrina religiosamente, precisamente porque a sua linguagem é a vida e a realidade.

Mas olha, na minha catequese “oficial”, a minha catequista começou mesmo por “aqui”. Até porque começou com o Génesis, aquilo não lhe deixava outra saída. Enfim… mas eu já não era nenhum infante, e a senhora era licenciada em teologia.

Um abraço.

12:29 da tarde  
Blogger MC said...

Estimado Vitor
Etimologicamente a palavra catecúmeno significa: aquele que se deixa moldar pela palavra de Jesus.
A frescura que que sente em ti, na abertura à Palavra, desejo do fundo do coração, que nunca a percas.
Mas o rito do teu baptismo já aconteceu?

4:24 da tarde  
Blogger Vítor Mácula said...

Caraças, MC, não estava à espera duma pergunta tão concreta e directa!

Não, o rito não aconteceu.

Conheces o caso de Simone Weil, que não se baptizou porque dizia que se a tese “católica” do limbo e inferno é como alguns “integristas” pretendem, que ela preferia então ficar ao lado dos seus irmãos judeus e outros. Tal qual aquela afirmação de S. Paulo. Se já se viu melhor realização do espírito da letra!

Bom, mas não é bem esse o meu caso. Em princípio, o rito será na próxima Páscoa. Isto da minha conversão já começou há muito tempo, e já há largos anos que vou à missa quase todos os domingos, entre outras actividades paroquiais – poucas, que na paróquia onde moro (ou morava até há um mês atrás), do que “eles” gostam é de festejos tranquilos e feiras de bugigangas, contra os quais não tenho nada contra, mas não se pode fazer outras coisas para anunciar e partilhar e pôr em prática a boa nova?!... Mas o baptismo… isso é uma coisa séria. As minhas resistências, como com certeza já depreendeste, não são com o cristianismo; o problema é que me pensinto qualquer coisa como “católico protestante” – por exemplo, os dogmas da virgindade biológica perpétua de Maria, assim como a sua Assumpção e a infalibilidade papal, não escorrem pela minha goela como água cristalina. Mas a afirmação peremptória do contrário, como faz o protestantismo, também não a engulo facilmente. Mistérios são mistérios, e interpelam-nos mais do que se certificam “ao milímetro”. Realço a virgindade biológica perpétua de Maria, visto que me parece que o Novo Testamento fala dos irmãos de Jesus, nomeadamente Tiago (a retorsão da probabilidade etimológica do termo grego “adelfois” significar primos ou primo e não irmãos ou irmão, não me convence de todo). Seja como for, também não o afirmo “dogmaticamente”.

Nunca mais sairia “daqui” se tentasse explicar a decisão de “finalmente” baptizar-me. Em princípio será pela Igreja “Católica”, mas veremos (o futuro a Deus pertence), e as razões pela escolha desta… também nunca mais sairia “daqui”. É para isso que o blogue “serve”, entre outras coisas…

Quanto à etimologia de “catecúmeno”, bem, nesse caso quero ser catecúmeno até à morte!

Um abraço.

6:23 da tarde  
Blogger MC said...

Caríssimo Vitor
não queria fazer-te a pergunta assim no blog, mas como não tenho o teu endereço de e-mail, fiz. Sabia que se não quisesses responder, não o farias.
Tenho acompanhado várias pessoas a fazer o percurso que estás a fazer, é das coisas mais belas que tenho visto. A fé delas é algo de contagiante, de comovedor... de comtemplação, direi.
Tens mostrado isso, um bocadinho por aqui.
Quanto a sentires-te um pouco "protestante", já deves ter visto que eu o sou em doses "cavalares" (não é que eu seja exemplo) é só para te dizer que não estás sozinho nesses sentimentos.
Esses dogmas de que falas, tanbém tenho reservas quanto a eles, mas convivo bem com isso, porque como dizes muito bem, tenho-os como mistérios dos quais verei um dia a verdade. Até lá convivo bem com eles.
Por exemplo, como saber se Jesus era ou não filho biológico de José? Não excluo essa hipótese, sem retirar uma palavrinha à minha profissão de fé.
Sei muito bem que o nosso conhecimento de Deus é limitado. Não quero é fechar-me ao Seu Espírito criador na minha vida. O resto virá por acréscimo.
Quanto à vida nas paróquias...bom, às vezes é muito dura. È uma verdadeira prova de fogo. Mas se soubermos equilibradamente, ir procurando alimento por outros lados, aguenta-se. Mas se se leva a coisa a sério, é preciso estofo de guerreiro.

Já rezava por ti, vou continuar...

10:40 da manhã  
Blogger Vítor Mácula said...

Cara MC.

Claro que não retira nada à tua profissão de fé, antes a aprofunda - quero dizer, quem é que sabe realmente como acontece(ram) os mistérios da profissão de fé?...

Também já rezava por ti, e etc.

Um grande, grande abraço!

10:54 da manhã  
Blogger freefun0616 said...

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1:42 da tarde  

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